Review: Lessa Gustavo – Sem Mistério

Um salve só para quem está de quarentena ou incentivando a greve pela quarentena. Os mandachuvas do site me obrigaram a me apresentar, então, rapidamente, eu sou o Gabriel Diamantino, todo mundo me chama por Z, infelizmente decidi fazer jornalismo para a vida e aí virei publicitário sem querer, mas seguimos nessa mais ou menos sobrevivendo às intempéries governamentais. Espero que vocês gostem dos textos, não odeiem – por completo – minha opinião e lutem contra o capitalismo.

Eu conheci o Lessa Gustavo pelo visual-EP do “Instalações Noturnas, Assuntos de Rua” (2017) dele e do Makalister no Youtube. Já acompanhava o trampo do Maka e foi uma agradável surpresa os versos do Lessa, que se destacaram naquele EP. O estilo estético errático do vídeo casa perfeitamente com o que ouvimos: versos íntimos beirando a abstração da vida. Em 2017, o Lessa também lançou um single em parceria com a banda Raça, “Os sinos que não Lustrei”, uma música linda pelo qual tenho muito carinho.

O rapper é um desses tipos inquietos que produzem incansavelmente. Esse ano já lançou as faixas “Cerol” e “Desembaraçar” sob o título “Vermelho Cor do Céu”, um experimento interessante e bonito. Também teve sua parceria em A Cor do Vento com o Gvtx (que junto da Nabru tem um dos melhores discos do ano até agora). 

Finalmente, o EP “Sem Mistério” é rápido e certeiro. Composto por seis faixas em que a mais extensa não chega a dois minutos e meio. O projeto é carregado pela assinatura do Lessa, desde as letras até as escolhas de beat, seguindo a linha de seus últimos trabalhos, indo assim para um lado bem mais melódico. A Capa traz tons de verde que invadem a obra e demonstra outras faces do MC, que também se apresenta como artista visual. 

O conceito da narrativa que permeia o EP se apresenta no próprio título, tratando-se de uma motivação simples que aparece crua na sua frente, sem mistério algum. A intro marca o estilo sonoro que habitará todas as faixas do disco, e é o único beat feito pelo próprio Lessa, sob o vulgo Loratadina. As outras faixas trazem ZERO, OLHO e sopa preta na produção. 

A segunda faixa, “tentei”, é a composição mais bonita do álbum. Com uma estrutura fixa que se repete em toda a música, o canto da última palavra encanta ao final de cada ciclo. O discurso sobre tentar incide na passagem do tempo, trazendo sempre mais um período diferente em que a única coisa que se mantém é o frustrante tentar. Toda essa construção nos propicia lindas linhas como:

Mais uma madrugada de tentativas

Algumas palavras malditas

Queria tá com sede para esvaziar essa área

Mas quando a água subiu, me vi numa condição ilhada

Como uma ilha, ilhada

Seguimos o caminho para “vagão”, como as próximas, toda cantada. A narrativa sucinta é sobre algum ser humano incrível encostado na porta do vagão do metrô, atrapalhando quem desce – tenham empatia, caros amigos, e cuidado com o vão entre o trem e plataforma. A seguinte é “o jogo que ninguém ganha”, dona do beat mais interessante do disco e uma composição simples que, à primeira vista, fica em segundo plano, porém não perde força em meio aos elementos sonoros.

A penúltima faixa, “mosquito”, volta-se para o clima quente e os dias cheios de insetos, tudo nela fede a verão, criando imagens que transmitem as intenções do autor. Por fim, a última track, “alto”, onde o rapper volta a rimar, encerra o projeto com algum gosto de arrependimento na boca. 

O EP se mostra coeso tanto em sua produção, quanto em sua letras. O clima da pós-produção é um detalhe positivo e acaba somando bem à entrega do artista, que consegue se colocar muito bem nessa estética sonora mais “suja”.  O próprio Lessa Gustavo já demonstra muito conforto e experiência naquilo que se dedica a compor. O álbum continua no estilo de seus últimos trabalhos, mas aqui ganha maturidade soando mais natural. 

Apesar dos pontos positivos, é um disco que se propõe pouco, ficando ainda restrito aos nichos de produção do rapper, não conseguindo alcançar destaques maiores. É necessário também um pouco de paciência do ouvinte médio pelos traços estéticos, mas não cansa ao ser ouvido, valendo ser escutado de novo e de novo. Por fim, o MC se demonstra, já faz muito tempo, um grande artista e fico ansioso pelos caminhos que seu estilo e composições virão a descobrir em seus próximos trabalhos.

 

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