Review: Hot e Oreia – Crianças Selvagens

Salve, Ascencio aqui. Com o fim do coletivo mineiro DV Tribo há mais de dois anos, seus integrantes começaram, de forma mais liberta e característica, a criar suas próprias trajetórias individuais no cenário. Hot e Oreia, desde suas primeiras aparições, se demonstravam como destoantes ao que o rap apresentava naquele momento e, inevitavelmente, chamavam atenção por suas temáticas e estéticas que quebravam o padrão deste. Isso foi potencializado em “Rap de Massagem”, lançado no ano passado, onde o duo se apresenta, principalmente, como antagonistas bem humorados e ácidos ao perfil padrão do rapper frágil, machista e previsível. Sendo assim, “Crianças Selvagens” vem agora para continuar esta tarefa de escárnio, embora não tão centralizada à cena musical, ganhando ares mais gerais.

 

 

Dropado em uma semana agitada, entre lançamentos de peso e um anúncio de lava-jato, a dupla colocou na praça seu segundo álbum de estúdio apostando timidamente em um barulho momentâneo nas redes sociais, além do lançamento de singles que até então vendiam bem o produto. No entanto, com o play estendido, “Crianças Selvagens” mais parece um barco afundando, com Hot tentando jogar água fora e Oreia fazendo buracos. 

Talvez, o que mais possa delimitar essa separação se encontre na contraposição de “Oxossi” e “Ela com P”, faixas onde cada MC desenvolve de forma solo suas escritas. De um lado, Hot continua a demonstrar sua devoção religiosa, dessa vez, falando de Oxossi, enquanto canta sobre prosperidade e família de forma inteligente e alinhada à temática do álbum, sua entrega e o canto religioso do refrão se harmonizam aos sintetizadores de Rafael Fantini em um bom resultado final. Na outra ponta, Oreia decide, em um de seus variados exemplos de ausência criativa, compor uma track dominada por palavras iniciadas pela letra “p”, uma ideia banal e batida que, sem motivação aparente, não dá continuação a nada, a não ser uma tentativa falha de encontrar uma nova forma para explorar em exaustão uma temática extremamente repetitiva do álbum: o quão bem entendido (e sucedido) amorosamente o homem moderno é. Juntando a ideia da composição e o tema, é quase como se isso fosse canetado por uma espécie de Fabio Brazza “desconstruidão”.

A desconstrução da masculinidade está presente desde o primeiro trabalho, lá, no entanto, surtia efeito por ser melhor dosada em um projeto de assuntos (e produções) mais plurais que viria a definir o perfil do duo. No entanto, a impressão é a de que os MCs não trabalharam da melhor forma este feedback positivo e, ao invés de buscarem expandir suas propostas artísticas neste retorno, apenas esticaram a ideia de desconstrução que os aproximou tanto de uma classe média-universitária emergente no público do rap, até que o assunto fosse esvaziado e dominado pela superficialidade.

Este problema se demonstra na composição, onde uma performance abaixo da média encontra seu carro chefe com Oreia no volante. A maior prova disso está em “Presença”, lovesong com o sample de “A Tua Presença Morena” por Caetano Veloso (novamente apelando ao mesmo recorte de público). Apesar da estratégia evidente, a colagem é boa e os acordes de violão do sample funcionam na produção; Hot entrega lugares comuns da proposta, com boas pausas e modulações de flow antes que se alcance certa monotonia, Oreia, no entanto, proporciona ao ouvinte uma das piores e mais vergonhosas sequências de rimas vistas este ano, tendo como plus uma multissilábica exemplo da nada empolgante caneta do projeto:

Só pra dizer que eu amo

Quando você tá sangrando

Quando molha esse pano

Olha esse lençol branco

Fico tipo Michelangelo

Você me quer anjo?

Indo além, se apelos sexuais repetitivos e excêntricos aliados a uma entrega cheia de trejeitos e maneirismos são sinônimos perfeitos de uma masculinidade desconstruída tão esbanjada, o equivalente a críticas sociais e políticas segue o mesmo nível de superficialidade. Em “Vírus”, um trap bem feito mas sem nada especial de Deryck Cabrera e belíssima participação de Nath Rodrigues, Oreia mostra ao ouvinte sua fórmula para não ser mais oprimido, já que “Se querem te oprimir, ‘cê não deixa mais”, simples assim; ou em “Domingo”, desta vez com sample de Nelson Ned em mais uma boa colagem acompanha por uma bateria sincopada de Tropkillaz, onde o mesmo MC, na sua melhor representação de Gabriel, O Pensador, relata seu articulado plano de “invadir o senado/ conversar com o senador e os deputado’”, e não fica barato nem para o prefeito, que terá um dedo apontado para sua cara, é a selvageria; tudo isso com a mesma entrega enjoativa, que pouco se ausenta de suas performances vocais, independente de qual seja a proposta estética da track, como ocorrido em “Juro$”, por exemplo.

Hot faz o que pode e, apesar de não ter um grande repertório, consegue emplacar boas variações e refrões bem postados, como, respectivamente, em “Tudo Pode Ser” com alternâncias entre pausas e alongamentos de métrica; e em “Saiu o Sol” onde o refrão tem seu ponto alto, bem aberto e para cima, valendo-se até de inflexões. Além disso, tenta canetar linhas interessantes, e cria algumas imagens válidas para transpor suas ideias. Como a atmosfera de insegura e monotonia de um “Domingo” (à tarde) aliado ao cenário atual em que vivemos; ou em “Pode Mandar Matar”, seu ápice performático, onde, não apenas coloca boas sílabas em suas métricas, como também, mais uma vez, usa metáforas que envolvem o tema do trabalho ao ganharem vida na realidade:

Ayy, eu sou um dálmata, eu vim da mata

Mas num foi pra matar

As hiena atravessou e eu já tava lá

Eu tive que matar

Mas se alguém descobrir, eu vou ter que cobrar, ah

De fatos as coisas começam a melhora em sua reta final, tendo em “Papaia”, mais ao meio do projeto (onde a produção passa assumir os sintetizadores) o anúncio desta boa nova. A track flerta com o equilíbrio temática já ressaltado do primeiro trabalho e entrega bons versos da dupla, com Oreia finalmente entendendo (mas não por muito tempo) a necessidade de adaptar sua entrega à atmosfera, e também um verso apresentável de Black Alien, o convidado da track, com um flow harmônico e boas rimas internas. Tudo em uma atmosfera smooth criada por Coyote na produção mais interessante do álbum, de melodia lenta, baixo carismático e flauta como percussão, dando certo tom selvático.

A produção, inclusive, é o que mais se destaca em todo projeto. Quando esta qualidade mais se ausenta é apenas no sentido de não apresentar nada muito elaborado ou inventivo, mas nunca deixa de ser bem produzida. Seus pontos altos estão em “Papaia”, já desenvolvida, “Juro$”, de VHOOR, e sua quantidade satisfatória de elementos, garantindo alternâncias que fazem o que podem para aumentar o nível da track e “Tudo Pode Ser”, assinada por Deekapz, faixa final e também a de melhor estética de todo o projeto,  com guitarras, sopros, todo um ambiente de percussões que se complementam a uma bateria midtempo capaz de ditar um bom ritmo.

A evidente melhora no seu terço final poderia ter ajudado muito mais no valor deste álbum, porém, assim como o que ocorre na tracklist em geral, a virada positiva é atrasada por essa necessidade de adequar seu discurso a uma estética cartunesca de desconstrução e progressismo, almejando de forma escancarada este nicho específico que surge como “o rap de DCE”. “Crianças Selvagens” tem seus momentos e, se não fossem este problema, poderia ter tido muitos outros. Depois de criticarem de forma astuta todo um comportamento forçoso encontrado em boa parte dos MCs, Hot e Oreia parecem estar se encaminhando para a sua própria caricatura, só que do lado oposto da história.

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