Review: Luedji Luna – Bom Mesmo É Estar Debaixo D’água

Salve, JH se arriscando por águas diferentes aqui com essa review. Luedji Luna, logo em sua estreia, o excelente “Um Corpo No Mundo”, firmou-se como um dos grandes nomes da “neo MPB”, que no final das contas é um termo genérico para músicas cantadas que não se encaixam em um gênero específico. Em seu trabalho anterior e nesse, Luedji faz exatamente isso: passeia entre gêneros enquanto se recusa a colocar sua arte numa caixinha, sem soar derivativo demais. Se em seu primeiro disco haviam momentos de dispersão, “Bom Mesmo É Estar Debaixo D’água” é uma obra concisa em todas suas esferas.

Chamar esse álbum de R&B, como está etiquetada essa review, claramente é um exagero. Entretanto, Luedji se aproximou e atraiu atenção mais especificamente da comunidade hip-hop com seu EP “Mundo”, incrivelmente produzido por DJ Nyack, onde eram feitas releituras de canções do primeiro álbum com participações de rappers como Zudizilla, Djonga e Tássia Reis, justificando assim o interesse do público (incluindo este site) pelo novo trabalho da cantora. Este até pisa em alguns momentos no R&B, mas tem influências em todo lugar, passando por jazz, bossa e até a música caipira.

Essa produção consegue trazer tanta coisa e ao mesmo tempo ser concisa graças à ótima banda formada pelo queniano Kato Change, co-produtor do disco ao lado de Luedji. Grandes solos, como o de sax em “Embrulho”, ou o de violão na intro de “Origami” são destaques, mas o todo da musicalidade traz uma ambientação que puxa o ouvinte para mais perto da gravação, como se você estivesse no palco assistindo-a.

“Ain’t I a Woman” é talvez o melhor exemplo disso. A faixa com a escrita mais pesada do álbum é contraposta por uma produção vivíssima, com o mínimo de retoques para manter essa sensação de que tem propriamente uma banda tocando ali. Baixo, bateria, guitarra e teclado se envolvem com a voz forte de Luedji, enquanto a cantora fala sobre a temática da mulher preta que não é assumida, numa escrita mais figurada no início para, ao final, por o conceito na sua cara em uma das melhores performances do disco.

“Tirania” é uma faixa com tons mais épicos, contando uma intro estendida que gira em torno de uma belíssima performance de violino. Esses instrumentais mais lentos às vezes dão espaço para canções mais animadas também, como “Chororô”, de bateria discreta e baixo dando o tom ao longo da primeira parte, para depois uma passagem que apresenta o teclado e também dá corpo à bateria. Tudo isso enquanto o destaque maior fica para mais uma excelente performance da cantora, até que um solo de piano faça a outro.

Convidados são raros, mas aparecem bem. São três poetas: Lande Onawale, que canta a intro repetida em duas linhas: “O amor é coisa que moí muximba/E depois o mesmo que faz curar”; Conceição Evaristo, que traz o belo poema “A Noite Não Adormece nos Olhos das Mulheres” ao fechar “Ain’t Got No”; e, com maior destaque até pela excelente forma que é performado, Tatiana Nascimento, que apresenta “Quase” na segunda metade de “Lençóis”. Todas essas participações adicionam muito para o geral da obra, dando mais beleza em cada segundo que aparecem.

Embora outros elementos se destaquem, nada ofusca a estrela principal da obra, que é Luedji. Sua voz se encaixa com perfeição em cada instrumental que lhe é dado, seja no jazz de “Ain’t Got No”, uma interpretação que faz jus ao clássico da rainha Nina Simone, seja no soul da faixa título ou até numa entrega que lembra a música caipira em “Origami”. O range vocal da artista vai de algo mais grave a algo mais fino, e, embora não faça loucuras, cativa em todos os momentos que toma o microfone, mostrando uma sensibilidade ímpar na escolha de cadências.

“Manto Da Noite” é um exemplo dessa versatilidade, onde ela segue a cadência que o instrumental oferece, com uma voz doce durante o corpo da música e na saída varia entre a voz suave que nos é apresentada e um vocal vindo do palato (ou fundo do céu da boca), tudo sem deixar o nível cair. O vocal em faixas como “Tirania” e “Recado” é elegante como pede um jazz, entregando performances para se ouvir num evento de gala. Não há uma falha ou momento em que a voz de Luedji seja sequer mediana.

A performance não se resume à voz: a escrita também é linda. Se em “Um Corpo No Mundo” ela escrevera sozinha a maior parte das canções, aqui ela tem outras canetas em todas as faixas exceto na última, “Goteira”. O trabalho da caneta explora as temáticas diversas do álbum com maestria, fazendo em várias canções um passeio entre o “literal demais para estar numa canção'” e o figurado, entrelaçando isso tudo a uma poética excelente. Além da solidão e conflitos enfrentados por uma mulher negra (temas já explorados na estreia) os amores são ainda mais presentes aqui, mas não apenas o sentimento em sua face romântica, aqui há espaço também para o amor por sua filha recém nascida (inclusive, parabéns!). Muito se destaca a escrita sensual de “Origami” (uma das únicas que não é de Luna), uma aula de como se abordar o sexo numa canção.

No outro lado da moeda, essa escrita cobra um preço: ela é escassa. Não que chegue a denotar falta de criatividade, mas, literalmente, deixa a desejar: poderia ter mais versos, mais linhas, mais histórias. As linhas são curtas e o versos, em diversas canções, se repetem na primeira e segunda metade, chegando a borrar um pouco a noção de verso e refrão. Exemplos gritantes disso são “Tirania” e “Manto Da Noite”, dentre outras músicas.

O que afasta esse disco de uma nota mais alta é o fato de, em alguns momentos (sobretudo na reta final), se encontrar estagnado. Além das repetições de versos, há uma estrutura que se reitera em várias canções: instrumentais mais contidos, deixando apenas campo para cantora expor sua voz até que mais elementos sejam colocados na segunda metade ou mais próximo do fim. Não que seja uma estrutura ruim, mas adicionaria muito ao dinamismo da obra mais variações de progressão.

No entanto, essas observações passam longe de afetar a experiência auditiva de uma excelente obra. Em seu segundo disco, Luedji também agrada por seguir o seu caminho, numa era em que a maioria dos cantores buscariam algo mais voltado ao pop e encher a tracklist de feats proeminentes em busca de empilhar números. Luedji Luna é uma artista autêntica e, mesmo com alguns momentos onde poderia ter ido mais longe, “Bom Mesmo É Estar Debaixo D’água” é um excelente trabalho de uma excelente artista. E o fato de ter possíveis melhoras sendo visíveis fala mais positivamente do que negativamente da cantora.

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