Review: Tribo da Periferia – Híbrido

Ascencio aqui. Tribo da Periferia é um caso de sucesso. Desde que iniciou sua discografia com “Verdadeiro Brasileiro” de 2003, o grupo de rap nacional sabe bem manter a medida entre equilibrar suas raízes regionais e se atualizar às estéticas do momento, o resultado disso é conseguir manter, nesses 18 anos de discografia, um público gigantesco e atípico, fazendo números extremamente relevantes para a cena como um todo, tanto (e principalmente) para os demais MCs da velha escola, quanto para a maior parte do cenário que surgiu nos últimos anos.

 

 

Em um dos poucos exemplos de tamanha longevidade que temos por aqui, a temática do passado com um ênfase mais sério e direto à realidade periférica brasileira foi se atualizando (para alguns evoluindo) conforme ambos, público e grupo, também mudavam. Diferentemente de outros grandes nomes de sua geração, a exemplo de Facção Central e o próprio Eduardo Taddeo que mantiveram, até hoje, o olhar mais duro sobre a realidade de pobreza do país em suas letras, a Tribo, cada vez mais em seus últimos trabalhos, opta por um caminho mais positivo. As faixas de cinco a sete minutos de duração abordando suas mazelas dão espaço para tracks mais comerciais, de três a quatro minutos, falando sobre vitórias e luxos que até mesmo quem veio de uma origem simples se permite ter quando a melhora enfim bate à porta. Até aí, nenhum juízo de valor pode ser feito, afinal escolhas são escolhas, o problema mesmo começa com as exaustivas repetições e ausência de originalidade para trilhar esse caminho.

Apesar de todas essas mudanças, em “Híbrido” o grupo ainda segue com afinco as tradições do rap brasiliense em sua sonoridade. Na produção, completamente entregue por Duckjay, predominam os instrumentos eletrônicos para a composição melódica principal em suas estruturas, de forma que todos os demais elementos de condução e harmonia orbitam ao redor destes. Os teclados, percussões cintilantes, linhas de graves contundentes, cornetas estridentes, tudo pede os alto-falantes, o play dessas músicas em um fone de ouvido e não no som do seu carro é definitivamente a forma errada para ouvir este álbum.

Seguindo essa toante, a influência da música eletrônica talvez é a que mais predomine, já que está presente, em segundo plano, em quase todas as faixas e vem à superfície em momentos como “Segunda Noite”, com melodias e progressões previsíveis do gênero, e até mesmo em casos como “Festival de Nós Dois”, quando divide o protagonismo com o acústico, fazendo com que o ouvinte até esqueça que está escutando um CD de rap, ao soar exatamente igual a diversos sons românticos de sertanejo universitário que flertam com o eletrônico, ou seja, o ápice do que se pode entender como comercial e genérico.

O trap, é óbvio, não poderia ficar de fora e também ocorre aos montes e com pouca inventividade. A calma e soturna “Gelo e Gin” adiciona à sonoridade do DF a condução dos hihats comum ao subgênero do rap; “Cegonha” e “O Retorno é Lei” fazem o mesmo, a primeira é responsável por bater forte na abertura do disco, e a segunda mais puxada à inseparável música eletrônica, com viradas e estruturas instrumentais extremamente características; tudo sempre usando e abusando da combinação mais forte do projeto, os graves e as cornetas, sempre eles.

São apenas dois os usos de sample em todas as dez tracks: “Role Sagrado”, onde o acústico volta em um sample de violão para compor a primeira camada do instrumental; e em “Dia de Poderoso”, faixa em que é recortada nada mais nada menos que A música tema do universo mafioso, o clássico “Speak Softly, Love” de David Davidson. Diante desses usos batidos, seja o violão para atmosfera mais noturna da primeira, seja o previsível tema de máfia buscado pela segunda, é inevitável que uma atmosfera clichê não se instaure e se perpetue com nada de muito interessante nas composições, nem mesmo metáforas, ainda que fossem presumíveis, às propostas de cada música, principalmente tratando-se do segundo caso.

Se os MCs estão um tanto quanto ausentes da resenha crítica sobre seu próprio trabalho, geralmente é porque existe um problema. Duckjay e Look não se esforçam para elevar o nível de suas composições em praticamente nenhum momento do álbum. Com relação à temática, tudo parece uma única música, mesmo em pontos mais específicos como em lovesongs, a todo momento trata-se de experiências vitoriosas, marcas e bens luxuosos e tudo o que pode envolver este universo, sejam os amores e seus relacionamentos, as amizades e seus rolês e os inimigos e suas rivalidades; a função de ambos os artistas é bem feita enquanto apenas a de porta voz para estas cenas e situações que descrevem.

Do lado técnico, as rimas são predominantemente padrões e pouco elaboradas, com raras exceções de Look quando tenta buscar minimamente algumas sonoridades mais diferentes, a exemplo do início de seu verso em “Dia de Poderoso”. A entrega, no entanto, dispensa um pouco a simplicidade e ambos os artistas ganham mais força característica. Duckjay sabe usar sua impulsão vocálica a seu favor e possui boas impostações de voz para aumentar o impacto de sua entrega, além de boas transições para flows mais melódicos. Look possui um timbre mais carregado e caricato o que, na maior parte das vezes em que aparece, surge bem em oposição ao seu parceiro, mas, em alguns momentos, tende a não combinar com a atmosfera pedida, como no caso de “Festival de Nós Dois”. No geral, a interação entre ambos é decente, a dupla segue o mesmo ritmo com flows ora mais pausados ora mais acelerados sem nada demais a acrescentar, sempre evitando recursos técnicos que possam dar margem a deslizes se não bem executados.

O grande mérito do projeto está em acertar a escolha de produção para a sua proposta alvo, singles para festas e saideiras, sempre mirando os alto-falantes. No entanto, o plano geral de “Híbrido” é relativamente pobre em seus demais sentidos, a produção é pouquíssimo inventiva, não fugindo do óbvio de suas referências, e o mesmo vale para os MCs, suas letras ganham valor apenas enquanto hinos para estes eventos, no limite, talvez inspirações para possíveis melhoras de vida. E está tudo bem, Tribo da Periferia se encontra nesta curiosa categoria à parte do cenário como um todo, já que seu público, em grande medida, não tende a consumir tanto, com a mesma fidelidade, o que o público padrão de rap está ouvindo. Bom ou ruim, existe um enorme nicho muito bem delimitado, onde é inquestionável o sucesso e autossuficiência do lendário grupo.

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