NA AGULHA #01: Mini-reviews para não deixar nada passar

O hip-hop brasileiro não para. Seja no underground ou nos palcos dos maiores festivais do país, ele tá borbulhando. Por isso hoje a gente inicia esse novo projeto no nosso site: a Na Agulha, uma coluna de mini-reviews pra não deixar nada passar pela gente.

De trabalhos lançados no fim do ano passado a projetos que saíram no último mês, vamos falar de tudo que a gente conseguir porque o que a gente quer de verdade é falar sobre a música que a gente mais gosta. E ah, se sentiu falta de um projeto, pode ficar tranquilo que vem muito mais por aí.

Rua Dois – Proibido Estacionar Vol. 1

Por Gabriel Z

O rap, de fato, produziu poucos DVDs e vídeos de live sessions, e, mesmo assim, temos alguns que despontam como clássicos inquestionáveis, como o 1000 Trutas 1000 Tretas. Proibido Estacionar – Vol. 1, nesse caso, lançado como Ep, é uma versão ao vivo de um compilado de sons pelo novo coletivo RUADOIS e que se apresenta, por agora, como a iniciativa de melhor qualidade explorando o UK Garage.

O ponto alto do projeto é o casamento da animosidade e carisma do grupo em sua apresentação, tendo uma performance muito digna em sua condução, com a natureza do som, das letras e dos garages nos beats. O resultado é expansivo e ainda que seja ouvido nos fones, o som levanta, faz mexer, sentir como se estivesse tocando ali, onde quer que esteja.

Ao final, na hora da sua track de maior alcance, “fml”, eles citam que foi ali que tudo começou, pois foi o que conectou os integrantes. Esta, inclusive, ganha uma nova versão ao final, encerrando no auge a participação de tanto, na voz, Well e Mirral ONE, quanto, na condução instrumental, DJ AKILA e qnipe. Proibido Estacionar – Vol. 1 é de longe um trabalho memorável e que tem tudo para ser uma das apresentações mais marcantes do Rap.

 

Vandal – PUXUTRIUH

Por Matheus Malerbo

O rapper Vandal de Verdade, natural de Salvador, lançou seu curto EP PUXUTRIUH, contendo três faixas e pouco menos de oito minutos de duração. O EP veio acompanhado de um mini documentário, que explica um pouco da essência das faixas; e se tem algo que Vandal exala, é a essência.

A visceralidade da faixa título empolga, e a facilidade do MC em versar com desenvoltura sobre o que é ser pioneiro dentro do cenário no qual está inserido é assustadora: sua presença vocal e rimas fortes dispensam qualquer contestação sobre a veracidade do que é ser o primeiro. A estética e flow inconfundível juntamente com o refrão pegajoso (características fortes do MC), também estão presentes.

O EP apesar de curto, explora todo terreno pelo qual ele já provou ser brilhante, o grime de ‘TIROH IH KEDAH’ estaria longe de ser inovador se não fosse a performance afiada do rapper na lírica. Puxando o trio, seja na linha de frente das favelas e ruas de Salvador, na line principal de um festival ou na vanguarda do gênero, o MC não demonstra sinais de pânico ao relatar suas pretensões de ser um artista forte o bastante para carregar a música de rua, longe da gentrificação e dos conceitos formulaicos propostos pelo mercado musical.

Uma influência que já foi experimentada algumas vezes pelo rapper, como em ‘BALAH IH FOGOH’, é a bateria do pagode baiano, marca forte de ‘TROPAH DAH VIRGULAH’. Quem não é familiarizado com o ritmo pode demorar a se acostumar com a levada e o tempo da track, principalmente depois de ser acertado com as faixas anteriores; mas a versatilidade do MC é notável. O projeto é um suco de tudo que Vandal já fez até aqui, porém com muito mais refinamento, sendo bom pra quem já o conhece e ótimo como porta de entrada.

Lessa Gustavo x an_tnio – Catarina

Por Ravi Freitas

O underground brasileiro está repleto de pérolas muitas vezes inacessadas pela simples forma como consumimos música hoje em dia. E isso começa até no uso do verbo “consumir” ao invés de escutar, que nos lembra que nem tudo que é produzido tem a intenção de adaptar a fórmulas (em qualquer grau que for) pra ser comerciável. A união entre o rapper e produtor Lessa Gustavo, do RJ, e do produtor an_tnio, de Brasília, é isso: tão orgânica que ignora fórmulas em nome de um experimentalismo quase lo-fi (mas sem a preguiça característica do gênero).

Catarina é um ep curto: apesar das suas 9 músicas, são apenas 10 minutos de duração. Isso porque o projeto explora sonoridades de maneiras tão rápidas e minimalistas, que te obrigam a ouvir de novo e de novo pra caçar detalhes até antes imperceptíveis. A produção esquelética e simples (no sentido mais complexo da palavra) do brasiliense combina com os vocais arrastados e melancólicos do carioca, que liricamente não desaponta.

Um aspecto esquecido de alguns projetos, mas quase revenerado aqui é a ideia do ritmo de um projeto como um todo. Não só os instrumentais, as rimas e as ideias são de alto níveis, mas a forma como o disco flui te leva sempre até o fim. São só 10 minutos que passam imperceptíveis, sem basicamente saber que música é qual. E quando você vê, são novos 10 minutos, e novos 10 minutos e mais novos 10 minutos.

 

OQuadro – Preto Sem Açúcar

Por Go Magalhães

Em 2021, a banda baiana OQuadro lançou seu terceiro álbum de estúdio, intitulado Preto sem açúcar: um projeto autêntico de ponta a ponta e rico em linguagem poética em suas diversas camadas musicais, sempre com bastante sensibilidade na adição de cada instrumento musical em sua composição.

Recheado de colaborações externas, a banda do sul da Bahia trouxe 14 convidados para a composição do projeto, e cada participação envolvida complementa cada faixa com características bem singulares: enquanto Davzera entrega ótimos versos após lindas linhas de guitarra em “Motor da Fome”, Xênia França e Vanessa Melo enriquecem a faixa “Caça” com seus vocais de alta qualidade.

A pluralidade de estilos pelo qual o álbum percorre é vasta: do soul ao reggae, passando pelo funk, e até no drill, os artistas passeiam sem se prender pela obra, tudo sintetizado de maneira que suas composições musicais não soem de modo formulaico. Toda essa atenção com harmonias, composição, vozes e cânticos são reflexo para o que a obra se propõe a ser, um álbum que entrega acima de tudo, música de qualidade.

Se por algum motivo Preto Sem Açúcar passou despercebido do seu radar em 2021, seu olhar precisa se voltar para o nordeste do país e se encontrar com a obra da banda baiana OQuadro.

 

Beli Remour – Ondas 2

Por Gustavo Oliveira

Artistas definem qual vai ser o tamanho de seus trabalhos e o público reage a esse movimento, corroborando ou não. Alguns MC’s e produtores escolhem encarar suas obras com o máximo de amplitude possível, porém nem todos conseguem. O que não é o caso de Ondas 2, da inventiva e enigmática dupla Beli Remour e Makalister. O sucessor do disco lançado em 2019, carrega a desejada grandiosidade de seu primeiro volume, mas aprendendo com os erros e trazendo os acertos consigo.

Enquanto o primeiro disco se propôs a ser uma grande epopeia que refletia as referências dos dois artistas, “Ondas 2” se dedica a ser um episódio mais contido em tamanho, onde seu valor se encontra em registros líricos mais palpáveis e produções com um norte bem mais definido. A dupla, responsável pela produção do disco, desenvolve bem a mescla entre instrumentos mais orgânicos e roupagens com BPM acelerados, mais próximas de um rap mais tradicional.

Inclusive, um dos pontos mais destacados do álbum fica por conta de todo seu aspecto lírico. Apesar de todo o histórico de letras intrincadas e construções mais obscuras, Makalister opta por construções mais tangíveis, mas que ainda possuem um vocabulário  apurado. Enquanto isso Beli Remour explora bem sua extensão vocal, optando por escrever de um jeito que o deixa numa posição confortável para cantar. A parte musical do disco é um dos pontos altos, com os dois experimentando com sucesso diferentes flows, tons e timbres. Mesmo com um direção musical que não deixa o ambiente mais similar ao convidado, mas faz com que ele se adapte ao ambiente, Juyé, Maydana e Dudu cumprem seus papéis com maestria.

Enquanto as primeiras faixas começam com uma energia ímpar e com norte bastante definidos, não podemos dizer o mesmo da segunda metade do disco, que é justamente onde ficam as faixas menos memoráveis. A partir de “Mesmo Longe Eu Te Sinto”, o disco sofre um pouco com a falta de foco, um ritmo arrastado que não é justificado, algumas repetições de temas e produções pouco inspiradas e homogêneas. Entretanto, ele ainda reserva algumas ótimas exibições de Beli, enquanto Makalister não consegue acompanhar esse alto nível.

“Ondas 2” é um projeto que exibe bem as ambições da dupla de artistas e representam uma evolução e reinvenção dos dois em diferentes características. Apesar de alguns tropeços, o álbum figura entre as grandes obras de 2021 e na discografia de Makalister e Beli Remour.

A Inverso é um coletivo dedicado a cultura Hip Hop e o seu lugar para ir além do comum.